clxxxi.

anoiteço embriagada de estrelas. só suporto dois corpos, sete luas minguando. amanhã serei janeiro, estará um frio de rachar. meu amor, fechei a minha boca, os meus dedos. tranquei a alma na gaveta. perdoa-me a ortografia torta, sou uma estrela em queda. (de)cadente como uma cidade em ruínas após beijar um vendaval. efeitos colaterais.

clxxx.

espero o pavio desanamorar-se da vela, a vela dançar nos braços da tempestade, a minha morte antes da tua. mas as horas gritam-me aos ouvidos esfomeadas validades. tens os olhos embaçados, meu amor, um véu de névoa a querer comer-tos. a barriga cheia de murros, os pulsos cheios de ferro fundido. a morte já te chegou, meu amor. em silêncio, cheia de promessas. quer esposar-te, confundir-te com as mãos frias. quero correr para a meta, ganhar a eternidade em bilhete duplo. mas o para sempre dura tão pouco tempo quanto os avós. só as palavras e o céu das manhãs nunca se gastam. há sempre mais um pedaço de céu desejoso de alvorecer e uma frase em ruínas a cair das rendas dos vestidos – mas que importa tudo isso? as badaladas continuam a soar. apodrecem os dias, as pessoas e as almas. os nevoeiros engolem-nos, as chuvas esvaziam-nos. e logo é hora de ir embora. já expirámos, meu amor, esta hora já não é nossa.

clxxix.

é preciso estancar o mar, coar as estrelas. empunhar sal grosso, amor fino. é preciso cavar a terra, velar os corpos. atirar sementes aos campos sonhando florestas, fazer camas de gravetos aos recetáculos. é preciso ficar para ver os mortos arder no mar, abrigada no umbral da minha casa: tu, o teu corpo. tateio-te como uma chave busca a sua ranhura, como as unhas roídas revelam o segredo dos cadeados. olho-te como os telescópios espiam as estrelas, como as meadas carecem de agulhas. cubro-te de beijos como as correntezas se sabem lençóis, como as toalhas são pertence dos piqueniques. sonho acampar dentro de ti.

clxxviii.

brincamos de esconde esconde, à macaca e ao jogo da glória. temos cinco anos, três baús de lembranças. germinam flores na minha pele, itinerários na sola dos teus pés descalços. vivemos de açúcares e caças ao tesouro. praticamos encantamentos. uma valsa branda, poeira de estrela, um cantarzinho de beija-flor. uso cerejas como brincos, imitas gaivotas com as mãos. jogos de luz e sombra. soubéssemos nós naquela altura ler os livros de magia como bulas ou agora preparar antídotos. realizar operações stop aos ribeiros.

clxxvii.

lançam anzóis ao mar à pesca de estrelas. reviram as entranhas à procura de estrume. desossam flores. moem carne e estrelas. peneiram-nas sobre os ventres. rezam às catedrais ao invés d’às capelinhas de beira da estrada. vivem amores imperfeitos. não há licor que os salve, fagulhas que anunciem fogueiras. cadáveres procriam flores.

clxxvi.

escorrego nos teus braços como na calçada molhada. quebro o pé às flores. vejo as âncoras desenhadas a cor de azulejo sob a planta dos meus pés e vilancetes nos teus lábios. a mil léguas corpos flutuam no verso perdido de um breve poema alado. percorro o colar de pérolas que me abraça o pescoço com versos brancos – pudesse a minha avó rezar-me um rosário. ouço as balas e o revólver trauteando a canção de engate, mas de rosas já estou munida. em-bala-da. secas aninham-se sobre os meus cabelos, semeiam elegias. talvez leve um cálice de vinho para a viagem e uma âmpola de seiva sobre os cabelos. talvez.

clxxv.

subo aos telhados só para poder deles cair. o vento sopra brando, a pele exala flores. ululam as árvores ao longe, quase dançam. foi numa noite espelhada a esta, como navio em alto mar, que preguei de estrelas o céu, cansada de tropeçar nos ossos pontiagudos dos corpos caídos na beira da estrada. por semanas, teci constelações em segredo com fios de nylon como aranhas bordam teias à hora do chá inglês. lambia meus dedos moídos, escravizava-os. escalava profundezas. olhava-me ao espelho no escuro, contava meus assombros. queria poder guardar este céu cravejado de estrelas debaixo das minha pálpebras.

clxxiv.

mordo os lábios até ser ferro.
fecho as mãos em punho
até sentir estrelas pulsar.
olho o relógio até errar a hora,
a flor até murchar,
o osso até ser pó.
olho a semente até ser árvore,
a criança até que envelheça,
a noite até ser dia.
olho o teu corpo até ser cinza.
parábola. sabedoria milenar.

clxxiii.

pudesse eu ser-te piano com os meus vestidos de cauda. pudesses tu musicar meus beijos. tocar harpa na minha coluna vertebral, ukelele nas minhas veias. pudesse eu inspirar-te sinfonias de terceiro grau. pudéssemos nós ser debussy, essa compressa para a alma.

clxxii.

perfuram-nos as veias à procura de cordas de violão. mas nelas não mora outra sonoridade que não a dos espasmos que soltámos em desafino. lanham-nos as costas, meu amor, julgam que invernámos. mas por entre as frestas de luz que o corpo agora aporta só se escutam sustenidos. pudéssemos nós cantarolar-lhes, por entre as lascas de carne oferecidas à lua, que atearemos esse quintal de estrelas antes que possamos ser enxoval para fogueiras. pudéssemos nós. [canções em repeat].

clxxi.

pudesse eu amassar a saudade como um bolo. picar corações como cebola. servir-te numa bandeja de prata. [ensaios paliativos].

clxx.

os teus beijos a rasgarem-me a jugular como uma foice, a serem-me cordão de sapato, cinto de couro, nó de gravata. laços letais a sonhar-se colares. sinto as artérias pulsar e os badalos do enterro na pequena capela voltada para norte. imagino que na autópsia poder-se-á ler: neste pescoço jazia um mar, mas dele sobrou apenas uma gota. da etiqueta do meu pé pingará uma flor.

clxix.

olho a minha mão com a estranheza com que se olha a mão do poeta. queria quebrar linhas mas só quebrei galhos. entorna esta mão, vagabunda de dono, um bule no soalho. de rosas também se reza um chá, ouço-a dizer. inunda-me os sapatos ao ritmo a que o pêndulo do relógio oscila. verte flores no chão como se soubesse cascata ou morro dealer de pó de estrela. soterra-me de flores até ao pescoço, abafa-me os gritos com papel seda. fecho os olhos, respiro fundo, mergulho. ao fundo ouço os navios assobiarem, o estalar dos ossos. adormeço. quando abro os olhos descubro um mar de rosas.

clxviii.

sobre as tuas camisas de xadrez gritava xeque-mate.
sessentaequatro casas e um cómodo cheirando a flores.

clxvii.

agiganta-se a onda,
embrulha-se a espuma.
abre-se a boca,
atam-se as línguas.
rebenta a ondulação.
afundamo-nos em saliva.
mar-me-quer.

clxvi.

vi-te pálido. ressacado de mar. não há cadáver que viva de estrelas, nem lobo que não dê à costa. embriagada de correntezas, convicta de te ser chave, busquei um qualquer veio d’água do cimo deste sétimo andar a sul e apenas nos meus braços descorados vi rios, capazes de desaguar em oceanos. sangram agora os pulsos um mar sem endereço como pétalas se entregam libidinosas ao vento. lá fora as árvores escorrem contra os vidros desconsertadas. um pássaro abriga o livro do destino debaixo de suas asas e a cada quilómetro de voo sobre o mar, diminui a altitude. sobre suas asas as lágrimas da humanidade inteira, sob os segredos das falésias. tinhas a morte suspensa pelo trinco de uma porta, meu amor, shh, nada temas. fiz destes lençóis velas brancas, logo logo o alto mar, que não te trave este rio o navegar.

clxv.

pudesse eu sucumbir aos rosnares – vomitar os gemidos, evitar os suspiros.
pudesse eu acender lamparinas na noite – ser guia turística além-mar, além-túmulo.
pudesse eu fazer das ondas berço, das estrelas cobertor – de mim undívaga.
pudesse eu a poente não ver esfumados de dor.

clxiv.

quis esgotar-nos em todas as metáforas. chamar-te de mar, saber-te o meu ar. ser-te leve como os lençóis a esvoaçar à janela e pesada como o amor das âncoras ao fundo do mar. viver-te. morrer-te. feitiços alpha, feitiços ómega. venenos lentos, poções vorazes.

clxii.

esta noite é um grito, alguém disse. os maxilares posicionam-se esperando a invasão do som. quantos fantasmas a nossa boca deixará fugir? quanto da nossa alma irá ficar? quantos? quanto? o que restará neste corpo? nesse corpo? de nós? meu amor, o veneno precisa de ser posto fora. ao relento. [noites armadas com estrelas].

clix.

quis escalar todas as montanhas para nelas nos embandeirar, para nelas nos gritar. ecoar-nos, incendiar a alacridade dos espíritos, ouvir-nos rugir. que absurdo! nosso amor não vive de alturas, só de profundis, de corações movidos a corda, de ponteiros dormentes, de valsas lentas. o nosso amor é órfão de cume, feito de estrelas cadentes, bocas esfomeadas de flores, crateras de vulcão. escarpadas, vinis, argamassa. pontes férreas de vontade.

clviii.

pudéssemos nós viver de dias como vivemos de noites, pudéssemos nós amanhecer nepente, encher as nuvens de flores, esperar a tempestade, empunhar um guarda-flor. pudéssemos nós emoldurar a lua, vestirmo-nos de prata, estrelar o sol. pudéssemos nós. [aurora-me, meu amor].

clvii.

meu amor, desde que deus criou os homens tenho batido à porta de todos os jardins, e só na tua vértebra me fui capaz de aninhar.

clvi.

levo as mãos aos teus cabelos, sinto cheiro de jasmim. morro um pouco à memória do orvalho. calco-te a barba com as mãos descalças, farejo a curva do teu pescoço. chá de frutos silvestres. tenho pecado primaveras, sonhado flores. escondo-te debaixo da roda do meu vestido e danço por entre os roseirais. meu amor, que os canteiros nos morram tão devagar quanto as madrugadas.

clv.

sou tantas vezes um passarinho perdido de seu ninho, desencontrado de suas asas. enrolo-me no teu corpo como se os teus braços fossem ramos, como se o teu peito cheirasse a frutos. aninho-me como um novelo se afoga em linhas, anoiteço-te. corações em flor.

cliv.

percorro a linha do teu queixo, brinco de seres braille. reconheço nos sulcos do teu rosto as gelhas de uma lombada destruída por onde anseio navegar. teus ossos são um rochedo escavado pelo mar. as artérias do teu pescoço imitam ondulações. poemo-te. poemo-me. mil folhas, um verso só. meu amor, a tua boca tem gosto de mar.

cliii.

sonho-te mar, embargo-me.
aqui, no clandestino mar alto.
ancoro-me contra a corrente,
sorvo o mar até ensopar o estômago,
até apodrecer a embarcação,
até jazer o corpo.

quantas âncoras para contradizer a corrente?
quantas náuseas até embalar o coração?

meu peito é mar,
oceano.
meu peito é um mergulho,
cheio de ti.

quero bordar o meu nome e o teu numa árvore
embebida de seiva, incrustada de sal.

clii.

minha alma é um navio
querendo aportar.
meu corpo um cadáver à deriva
no teu braço de mar.
lobo não come lobo.
ferro não mata ferro.
quem me dera ser marujo,
perceber de nós.

cli.

deitados nesta caverna privados de estrelas juramos armar-nos despojados de carne, desapossados de céu. escavaste-a num morro como um lobo servil em noite de lua cheia, desinteressado de fábulas. homo homini lupus. viemos morrer cedo demais a este sepulcro, morrer um pouco antes do osso de um roçar o osso de outro, sagrar o amor como selante de todos males.

cl.

trauteio uma canção que te sorvi num beijo enquanto adormeço a colher de chá. pudesse embalar-se assim um oceano, sedar-se um coração. levo a chávena aos lábios, malogro-me.

cxlix.

pudesse eu decantar nossas almas, namorar a pureza dos corpos ou pregar a ressurreição das ossadas. viver de carne tingida, de lábios boémios, de corações sépticos. pudesse eu viver de arquétipos de (im)perfeição.

cxlviii.

amávamo-nos entrelivros, entrelençóis, entrecorpos. líamos os clássicos em conjunto uma vez seguida de outra. fui-te theresa e sabina. foste o meu bosie, a minha sumire. fomos tantos, sendo uns. era ao cair da noite, ao declamar-te poesia a meia voz, sentada na varanda de pernas oscilando sobre o vazio, que me suplicavas por neruda como um pedinte. ameaçavas-me o pescoço com os teus beijos e com as letais páginas dos livros que sabias de cor. guilhotinas de papel. mas debaixo da noite cerrada só era capaz de te dizer como gedeão me disse um dia que as estrelas zumbem em colmeias. ondjakizava aquele pedaço de noite sobre as nossas cabeças, à falta de voz para cobrir de poemas todos os retângulos de céu que há no mundo e de barro fazia manóeis. mas hoje meu amor, neruda tem razão, caiu o livro que sempre escolhíamos ao crepúsculo e como um cão ferido encostou-se a minha capa ao pés.

cxlvi.

meu amor, os dias derretem como velas.
encosto o coração à árvore
para travar o metabolismo dos troncos.
um relojoeiro disse-me que
a minha pulsação irregular
atrasava meu relógio,
são cinco da manhã, depois duas,
a festa não começou,
e eu danço destruída na pista. sozinha.
minha dor lancinante pulsa um pinheiral,
avaria todos os cronómetros.
minha vida é um countdown
ao primeiro dia.
mergulho as mãos na parafina,
sustenho os dias mais um pouco.
o pavio condena-se à ruína num sopro.

cxlv.

somos carrascos, bastardos de vénus e marte. beligerantes de lábios em punho, belicosos de corações em lança. não havia outros capazes de interpretar esta barbárie, não havia outros que pudessem ser objeto deste amor. escutas-me?

cxliii.

éramos frágeis. corações de loiça. tlintávamos ao balançar do vento amedrontando espíritos, embalando utopias. cobriamo-nos de flores na vã esperança de florir. corrompidos de rumos atirávamos estilhaços de cristal como migalhas ao chão. sonhávamos clareiras. jardins. alcateias de flores.

cxlii.

vejo a lua correr as cortinas, ligar as luzes de natal no céu, cessar o vento e o movimento das ondas. calar os mortos, hipotecar a alma dos vivos, amaldiçoar homens com coração de lobo. incendiar promessas, esquartejar o céu em linhas, pregar calmarias. fazer inveja aos candelabros, beijar os metais, invadir todas as casas. alimentar almas a sangue de unicórnio. ah, antes lhes desse sangue de centauro! antes lhes prometesse amores eternos selados com veneno devorador de carnes! antes lhes dissesse para olhar o equador celeste em busca de monóceros! antes se esquecesse de todos como de nós, perdidos das contas de somar do mundo, neste quarto a sul. ah, antes não visse eu a lua balir cordeiros aos lobos!

cxli.

meu amor, sou como um navio perdido entre quimeras.
fujo dos portos por amor aos faróis.

cxxxix.

não há equação que me valha, não há fórmula que me sustente.
meu coração é um conjunto vazio sem precedentes de solução.
conta-me, meu amor,

por onde andas.

cxxxviii.

é preciso perceber-se de costura para amar alguém. é preciso saber alinhavar bainhas, suportar em duas costuras um coração. costurar um colina de véus e uma anágua que se mascare de monte. costurar uma serra, armar uma cordilheira. plantar renda no retrato que habitará o postal. escutas-me? quero voar, mas tenho as asas cobertas de dedais – quem me há de estancar as penas?

cxxxvi.

não há sossego que perdure neste reino ou sob a caneta que teimo não levantar do papel. o vento faz carpir as árvores à hora que os fantasmas acordam do túmulo. meia-noite abóbora, meia-noite carruagem. ao soar das badaladas tropeço nas nódoas cor de galáxias que habitam o céu de linhas da minha pátria. escrevo-nos às escuras, vendada de estrelas. o vento beija os derrames das minhas pernas, inebriado pela palidez dos espectros. amor firme, pedra e cal. há na rutura dos vasos a emancipação das flores. querem esses hematomas de prosa recordar-me os outros que moravam nos meus braços de me agarrares ávido, malsofrido de botânica. sob a pele translúcida: um jardim de inverno.

cxxxv.

houve um tempo onde via nos teus olhos os berlindes perdidos da minha infância, noutro nevoeiros. vestida de preto a menina dançava sem parar. pudesses tu ver auroras boreais nos meus olhos ao invés da bruma do pessoa ou da cacimba do ondjaki, pudesse eu ver nos teus fogos de artifício. pudéssemos nós, meu amor.

cxxxiv.

meu amor, os teus beijos foram sempre bilhetes a sonhar-se cartas.
o teu amor verso a querer-se poema.

cxxxiii.

entranço os meus cabelos ao assobio da canção monótona das ondas. olho o mar embevecida, alheia aos tornados. põe-lhe agora as mãos o vento, buscando sítio côncavo, para afundar segredos. o meu também mora ali, a sete palmos de rosas, a sete palmos de mar. resisto ao vento dançando minha dor. mais tarde, soltarei um dos l ó b ( u l ) o s das minhas orelhas na tapada. um homem comerá o lobo. o lobo comerá a lua. a lua comerá o homem. meus joelhos violáceos logo serão negros, depois brancos. no meu biografema ler-se-á, no que flor que ela tenha feito, foi sempre flor. ora festiva, ora fúnebre. flor. flor porque sim, flor porque não. flor. [o vento desarruma tudo, até o coração].

cxxxii.

pudesse eu voltar no tempo, regressar aos dias felizes, conservar teu coração em formol. pudesse eu, neste instante, embalar sentimentos a vácuo, congelar nuvens, subornar o barqueiro com um ramo de flores no regaço.

cxxx.

olho o espelho partido sem desassombro. sacudo cada recorte de vidro que sobrou até me encontrar; condeno a alma a distribuir-se por assoalhadas. todas sou, mas é na abrangência da moldura espelhada, cirurgicamente dividida pela queda, que encontro a epígrafe do nosso amor.

cxxix.

meu amor, não foi preciso visitarmos o inferno para que as almas ardessem. no silêncio tirano das noites, escutava o crepitar dos beijos sobre a nossa pele eriçada como um gato assustadiço. fogueiras de adivinhação. escaldávamos os corpos ao toque porque o amor tal como os fogões queima as pontas dos dedos. pudesse o amor soprar-se como uma vela ao invés de ser lava de vulcão que irrompe sem aviso, incinerando almas, incendiando noites. pudesse o amor salvar-se da combustão. lume brando. pudesse o desejo não ser acendalha.

cxxviii.

meu amor é prata, cor de bala, cor de lua.
meu amor é papel de rebuçado, armadura.
meu amor é lâmina, metal, bola de espelhos.

meu amor é uma corrida de oitentaeoito teclas.

cxxvii.

se o amor fosse casino apostaria todas as fichas, todos os ossos, todos os minutos que tenho em minha posse, apostaria até a alma. não haveria risco maior que o nosso desencontro na arte do encontro que a vida é. escuta: o amor é o último unicórnio, aos quarentaecinco segundos da canção.

cxxvi.

nesta guerra, meu amor,
tudo aquilo que desejo é
voltar a vestir os teus braços
como armadura.

cxxv.

não há ferida para sarar, nem lume para atear, escutas-me? na carne exposta não nasce crosta e das cinzas não se espera fogueira. rego de sal a carne e as cinzas. incendeio a carne, curo as cinzas. que se espantem pelo menos os demónios, meu amor.

cxxiv.

não há noite em que não te vele na cova fúnebre de ausência que escavei no meu peito. quatro tábuas e uma vala não bastariam para enterrar este amor.

cxxii.

vermelho, o amor impregnado no sabugo das unhas.
vermelho, o amor na minha camisa.
vermelho, o amor a jorrar da carótida.
vermelho, meu amor. meu ensanguentado amor.

cxxi.

no dia em que partiste, os meus olhos secaram até chorar uma sementeira. a chuva colava-se ao céu da minha boca como uma papa. trovoava. cogitei engolir um temporal. mastigar um raio, relampejar um pouco. amar-te na corrente máxima. quantos volts até colapsar?

cxx.

fecho as pálpebras como persianas, escuto os teus dedos, finos como rolinhos de plasticina, ao piano. boicoto os relógios que de minutos somados amealham horas, que de horas somadas amealham dias. viro costas ao sovina. o tempo é uma doença a que nem a morte escapa, havemos sempre de padecer de tempo, mas esta noite jura-me iansã que não. trancou seu ror de órfãos a cadeado. pouso as minhas mãos sobre as tuas como outrora, leve, levemente. amar é isso: a ponte que vai do meu coração ao teu, só isso. dedilho memórias com o realismo das vésperas. vives esta noite, meu amor, neste trecho e no silêncio que lhe sucede.

cxix.

às cegas como ordena o amor empunho armas e poemas. não há química que não seja arma e palavra que não vista poema. colho a bravura do pomar e a tintura vermelha da guerra mais próxima – sempre há uma no final de cada rua. assalta-me a aspereza da fruta verde, mas mordo com ferocidade este fruto que me promete terra, sete palmos de terra. o amor quer-se dentado, digo-mo enquanto desvivo cada hora com a dureza implícita aos dias sem ti. os caninos provaram ter a virilidade dos cavaleiros: mancharam-me as gengivas impetuosas, os dentes da cor dos lábios, cereja amor. pudesse eu manchar a neve da cor do capuz da menina, pudesse eu. levo as mãos à boca. peco.

cxviii.

arranco poesia aos campos num só golpe a quarto minguante. quero varrer o dourado da paisagem. esvaziar o mundo de estrelas. prantear-te. degolar essa escrita torpe, ceifá-la. erradicar a carne dos poetas, roer-lhe os ossos até não restar um funesto verso. desarraigar-lhes a pátria.

cxvii.

falavas-me num português suave de alma vendida às madrugadas. murmuravas-me nevoeiros, clareiras banhadas a prata no meio da escuridão do pinheiral. esventram a lua com as agulhas com que tecem rendas de bilros, havemos de lá ir, juravas-me. fazias-me milecem promessas ao dia como as músicas que as árvores ouvem em loop. as árvores não tem idade, têm cadastro de sonatas, segredaste-me uma vez por entre a combustão que te incendiava os lábios. depois beijaste-me como judas. cercavas-me de advérbios, mudavas o rumo aos jardins. chilreavas-me melodias prosaicas e quadras pueris como as que se escrevem nos lenços dos namorados. mas de metáforas e eufemismos nunca me deixaste voar, só morrer.

cxv.

procuro-te em todo o lugar e em todo o lugar te encontro. fumaça. alastro a virose de que me infetaste a carne pelas ruas. raspo as mãos nas fachadas cobertas de gritos de amor a tinta preta, perpetuo-te. para onde quer que olhe leio o teu nome. assisto aos transeuntes alienados destilarem o teu nome. ninguém te sabe chorar, meu amor, como eu te choro. ninguém sabe pronunciar o teu nome. uivo à lua à noite na cidade, mãos em concha. gemo a par com as telhas sopradas pelo temporal. arranco os panfletos que ontem colei na tentativa de conter a epidemia. remoinhos de ausência. estanco as promessas que te fiz alucinada. nem o blues do metro é capaz de carpir este amor. queria ser pássaro, voar sem amarras de poeta cortês, mas descobri que há terra até no céu – não há absolvição de lua nem para mim: tenebrosa aprendiz de voos. [a noite nesta cidade rima com calamidade].

cxiii.

tive sempre o espírito de um cavalo selvagem e o coração de um lobo no amor, chegaste a percebê-lo? corria pelo amor como se corresse pela vida: indomável. beijava-te com a sofreguidão de quem não saberia não te farejar, correr atrás de teu rasto, quando te perdesse. então perdi-te. algures. depois de um charco negro que hospedou teu cheiro. debato-me desde então contra os meus fantasmas. mendigo desassombro, convulsiono. morre-me o coração ao balanço do galope.

cxii.

esfarelas-te nos meus dedos como açúcar, arrastas contigo epidermes mortas. escorres por entre os dedos com a finitude de tempo que vocifera uma ampulheta. grudo-te às narinas e às papilas na ânsia de te eternizar, mas sei que é no nevoeiro dos olhos, nessa textura nebulosa, da raça que me assombra, que me vais durar. raspas-me falecidas camadas na ânsia de lhe apagar vestígios teus. uno as mãos brancas sobre a saia rodada do meu vestido, desbotam. são mãos cor de pureza, mas creem-se manchadas pelo fado, cor de pupila. corações podres. sabem-se viscosas, carecidas de peles. não há malhas que as cubram capazes de fazer esquecer o xaile que teceste sem agulhas em meu redor.

cx.

há no estilhaçar do cristal que levaste aos lábios a plenitude da tua presença. descalça, perfuras-me a cada acorde. tentei varrer-te como varrias teclas ao piano, sem sucesso. fecho os olhos, escuto-te na sinfonia muda desta noite. há no encontrar-te a cada oscilação um mar vermelho a nascer-me aos pés. requintes de coração.

cviii.

soturno vai letes ao som das canções da floresta.
por onde flor, florescerá.
meu amor dormita agora num aposento escavado na terra.
beija-me os pés nus. alimento-o a caroços.
olho a nudez das árvores,
escolho a de casca mais enrugada,
peço que nela costurem artérias, enxertos de bondade.
tickets de regresso. mili helenas.
um manto com estampa de galáxia.
um ruído gutural de mar.

cvii.

sem ti, nada mais sou que destroços.
e ainda esses não sabem não viver para morrer de amor.

cvi.

choro-te em surdina.
abafo os lamentos num lenço
como se escondem timbres.
sufoco os gemidos numa almofada
como se praticam últimos suspiros.
escondo a dor que me deixaste com engenho.
ranjo os dentes, estremeço os membros.
vazo a sensibilidade gota a gota.
sacudo o corpo inerte
como a corda de uma guitarra.
hei de morrer neste vendaval.
indolente.

cv.

olho o mar picado anestesiada pelo motim das ondas. transbordo alvoroço numa saudade impronunciável. afogo as íris no marulho das córneas, sedenta do tumulto da tua voz, da desordem arruaceira dos teus gritos servos ao luar. meu amor, que é de ti? que é de mim? persisto vertical neste quarto a sul, indiferente aos tetos do céu, numa clara ode aos candeeiros de rua. desafortunada de seiva questiono-me: se me cortassem os pés quantos séculos teria? [derrames de coração].

civ.

caí na toca como a alice. escutas-me? bebi de todos os frascos, clamei por melhores poções. não há nenhuma que me mingue este amor. cruzo os braços. a cada gole: um quarto crescente. cheguei aqui, a esta lura, amando-te uma casinha e não paro de te amar mansões. caí no teu covil, fiquei-te alice. alice, meu amor. lua cheia.

ciii.

sobreviver-te é uma tarefa hercúlea. e eu, que estofo de betão não tenho e de coração de ferro não padeço, bato à porta de todas as ruas e em todas te encontro, e em todas te choro com a retidão das árvores. bambaleiam-se os meus cabelos, no tronco estático de sal, desejosos de tocar as gravuras cordiformes, construir cidades de cloreto de sódio, reclamar o parentesco das estirpes. pudesse eu, meu amor, escavar raízes na terra até te beijar. pudesse eu espancar os pinheiros sombrios ao crepúsculo, travar uma guerra relâmpago, saquear-lhes as algibeiras até numa te encontrar.

cii.

sucinto o beijo com que me ameaças a carótida.
sucinto o calafrio que me percorre a espinha.

c.

meu amor, do meu coração ao teu há um arame cheio de espinhos.
vamos dançar lá em cima até morrer. o cheiro a rosas inebria-nos.

xcix.

o plano era acordar e morrer um pouco. irmos morrendo a cada dia. juntos. até as cortinas nos varrerem os pés. agora tento morrer, morrer mais a cada dia. embrulho-me na cortina cor de massacre na arena e ponho os pés em ponta. tento morrer, morrer-te. iludo-me. morro, morro só. vou morrendo. cumprindo a sequência dos dias com temor ao desencontro.

xcviii.

pudesse eu sabotar todos os relógios do mundo, interromper o sentido dos dias, aprisionar-nos na escuridão, contar cadentes desejos a meia lua, soprar as velas dos dias na cauda de uma estrela. pudesse eu, meu amor. pudesse eu.

xcvii.

amo-te neste agora
e no outro que vem a seguir.
amo-te na sucessão de presentes
que os ponteiros oferecem.
amo-te ininterruptamente,
na soma contínua de todos os traços
e momentos de espera
da segunda circular.
não paro um só fôlego de te amar.

xcvi.

pudesse eu poemar-te.
fazer das tuas mãos verso,
dos teus olhos universo.
rimar-te os lábios,
dissecar-te a alma em estrofes.
imortalizar-te numa ode.
pudesse eu essa epopeia,
pudesse eu.

xciv.

estou presa no labirinto de te amar. clamo auxílio em gritos mudos.
consegues ouvir-me?

xciii.

sacudíamos os esqueletos ao som do jazz como lobisomens desmontam homens. arrancavas-me as ervas daninhas do jardim dos cabelos com a compulsão dos obsessivos. arranhava-te a pele até ser cor de índio, com a ganância com que os cães tocam o violão das pulgas, até o veneno fugir das veias. perdíamo-nos dos acordes. infames vivíamos de amor, por amor. ópio corrosivo. (des)concertos. vendas cor de noite.

xcii.

subo a esta varanda na cadência do voar. ouço os sinos da torre da igreja ressoarem nas paredes debaixo dos meus pés. rodo a cabeça sobre o ombro, vislumbro-te por entre o manto negro que tudo cobre, amarrotado, perdido, entre lençóis adormecidos. olho-te, não respiro, não quero inspirar ar algum que não esteja saturado de ti. entorpeço, meu amor, viro as costas quando os olhos mareados anunciam maré cheia. semicerro-os na ânsia de naufragar. um mergulho há de bastar. não há óbice que me impeça de chegar a ti. de pálpebras corridas como estores havemos de imortalizar as noites. consegues escutar-me, meu amor? [equilibrismos baratos].

xci.

meu amor é velho, gasto como as solas dos sapatos.
meu amor é velho, lago de gelo que avista a primavera e parte.
meu amor é velho, teimoso. sabedor.

meu amor é velho, tão velho que fintou a morte.
meu amor é velho, tão velho que destronou o tempo.
meu amor é velho, tão velho que caiu no esquecimento (lá fora).

meu amor é velho, tão velho como não há registo.

xc.

o amor é estranho, rude. obra de engenho.
o amor é ventre, luz. escudo que defende.
mors omnia solvit.

lxxxviii.

escorrego no vulgar ao escrever-nos. perdoa-me, meu amor, se trago alojada na boca dos dedos e na sola da barriga os embalos da canção.

lxxxvii.

subtil
a lâmina calcorreando a pele,
o sangue a morrer-te nos lábios,
o florescer da tua barba.

subtil
o formigueiro sob os dedos,
o amor em pés de lã.

lxxxv.

pudessem todos os noticiários do mundo anunciar-nos. a nós, lobos solitários, trovadores de luas, carniceiros de estrelas. pudessem todos os noticiários anunciar-nos, meu amor. a sul do mundo, um amor tão letal quanto tabaco, ler-se-ia em rodapé; porque o amor também faz morrer, porque o amor pausa a noite, intervala os dias, beija a alma, porque o amor se desvanece como fantasmas peneirados por um filtro. pudessem eles, meu amor, revelar quem acende à noite suas estrelas, pudessem eles testemunhar este amor. este meu amor.

lxxxiv.

fechávamos os olhos a cada início de dia, ressentidos de claridade, presos às noites que nunca soubemos imortalizar. soubéssemos nós estender sobre os dias as noites como toalhas de piquenique. soubéssemos nós. fechávamos os olhos até ser escuro e nunca era o bastante. não há covil que assuste a quem foge da lua cheia. abríamos os olhos, feridos de quimeras, preenchíamos as paredes de estrelas. cardíacos, desorientados, ávidos de mapas. cegos às constelações.

lxxxiii.

meu amor, há na sobreposição dos nossos corpos malhas de inverno, calafrios de seda, amarras de betão.